ANÁLISE POÉTICA | Limites ao Léu, de Paulo Leminski


Nos anos 60, o curitibano Paulo Leminski Filho, começou a escrever após conhecer o Concretismo através dos poetas Décio Pignatari, Haroldo de Campos e Augusto de Campos, que conceberam a Poesia Concreta. Porém, no decorrer de sua trajetória, Leminski agregou várias referências diferentes em suas obras, tornando-se famoso já nos anos 70, quando publica seus primeiros livros. Se destaca por seu modo próprio de escrita, agregando elementos diversos como trocadilhos, ditados populares, budismo, também escrevia haicai e poesia marginal. Leminski foi também, além de poeta e escritor, professor, tradutor, compositor e crítico literário.

Em 1997, o autor publica Distraídos Venceremos, livro dividido em três partes onde o autor apresenta haicais, versos e metapoemas. Nesta obra, é encontrado o poema LIMITES AO LÉU, republicado postumamente em La vie en close, coletânea de 2004 que reúne alguns poemas escritos depois de Distraídos Venceremos. Paulo Leminski morreu de cirrose em 1989.



LIMITES AO LÉU
Paulo Leminski

“words set to music”
“uma viagem ao desconhecido”
“cernes e medulas”
“a fala do infalável”
“linguagem voltada para a sua própria materialidade”
“permanente hesitação entre som e sentido”
“fundação do ser mediante a palavra”
“as melhores palavras na melhor ordem”
“emoção relembrada na tranquilidade”
“ciência e paixão”
“se faz com palavras, não com idéias”
“música que se faz com idéias”
“um fingimento deveras”
“criticism of life”
“palavra-coisa”
“linguagem em estado de pureza selvagem”
“poetry is to inspire”
“lo imposible hecho posible”
“design de linguagem”
“aquilo que se perde na tradução”
“a liberdade da minha linguagem”


Dando Léu aos Limites

Utilizando da técnica de colagem e centão, Limites ao Léu é um poema de cunho surrealista onde Leminski utiliza trechos de diversas obras de outros autores, explicitando seu vasto leque de referências teóricas, literárias e musicais. São ao todo vinte e um recortes, mais uma última frase do próprio.

Uma colagem utiliza imagens ou sentenças desconexas que podem ser interligadas atribuindo um sentido maior ao todo. Seja um sentido mais claro ou uma visão específica do autor.

O poema original é apresentado com os devidos recortes das obras de diversos autores, acompanhando o nome de cada um entre parênteses, em formato de citação. Visualizando o poema sem fazer a leitura dos nomes de cada autor, é possível obter uma compreensão mais corrida e direta, interligando citação por citação percebemos a coerência estabelecida no decorrer do poema, mesmo que por vezes tenham temas e idiomas distintos, são capazes de se encaixarem num devido momento. Explorando o poema como um aglomerado, é possível constatar a conversação estabelecida em cada citação realizada por Leminski. A coleta dos trechos foi feita com objetivo de construir um texto abordando as temáticas da linguagem e da materialidade. Leminski inicia o poema exibindo um determinado interesse por música, que perpetua até o seu desfecho, citando Dante (via Pound), prontamente passeando pela concepção das palavras, que ele implica no decorrer de sua obra, fundamentando concepções inspiradoras sobre o ‘desconhecido’ profundo, seguindo Maiakovski e Ezra Pound, que faz conexão com ‘a fala do infalável’ (Goethe), abordando o tema da materialidade, ainda na pulsação sobre o sentido, estabelecendo ligação com o ‘ser’ e ‘humanidade’ ligada a teorias de Jakobson e Heidegger, trazendo também amantes da prosa e poesia, como Paul Valery, Novalis e Coleridge, em certos momentos o autor parece divagar numa percepção que colide com a existência e a originalidade das palavras, usando Wordsworth, Alfred de Vigny, Ricardo Reis e Fernando Pessoa para reforçar sua abordagem no tema, seguidamente citando ‘palavra-coisa’ por Sartre, que aponta a representação da fala em camadas visuais numa perspectiva de linguagem intrínseca, descortinando a poesia como um dom a seguimento dos respectivos poeta e músico Octávio Paz e Bob Dylan, Leminski alinha a ideia que quer passar analisando a profundidade da natureza humana em conflito com percepções existenciais a partir das poesias de Décio Pignatari, Garcia Lorca e Robert Frost, visando tudo, Leminski conclui com uma própria citação, aparentando usufruir de toda a sua liberdade para amarrar tudo que antes foi dito num parâmetro pessoal, tal liberdade constitui-se na maneira como “a fala do outro” é apropriada, o sujeito nela se inscreve, deixa a sua marca e, ao mesmo tempo retira-se sem ser percebido.

A conclusão de Leminski com uma produção de si mesmo, traz sentido total ao título do poema, que, aponta o uso da linguagem como uma área sem limites, que pode ser explorada livremente. Os autores de diversas épocas (alguns contemporâneos a Leminski) citados no poema, se vinculam de alguma forma a concepções idealizadas a fim de obter autonomia frente a realidade. Os trechos utilizados conversam entre si sobre linguagem e sociedade, tendo um diálogo entre os discursos, manipulando o sentido na construção do todo. Juntando sentidos de contextos diferentes, criando uma quimera poética, transformando pedaços de teoria e prosa em poesia, junto com pedaços de poema, formando um corpo conciso, vindo do intelecto de um, acessando a memória de outros. Um “híbrido anacrônico de coração atômico e couraça medieval”, (Campos, Augusto et alii. 1965). Usando desse anacronismo para unir dizeres de variados tempo e espaço, resultando num conjunto atemporal. Ligações que seriam improváveis por conta de limitações físicas e até quânticas, mas possíveis pela liberdade, criatividade, homenagem e genialidade de um poeta alcoólatra. Leminski passeia por uma linha totalmente vanguardista. Seguindo a mentalidade semântica surrealista “contra a organização sintática perspectivista...”, (Campos, Augusto et alii. 1965), com suas nuances únicas de contexto novo e próprio sentido, todo construído em pesados e vistosos blocos de concreto temático e poético. “As melhores palavras na melhor ordem”, (Coleridge), em sua literariedade e maestria empregada por Leminski e suas ideias begodozas¹ perante a perspectiva de como se produz um poema e se insere poesia emsentenças não necessariamente poéticas. E de acordo com Octavio Paz (2013), em Os filhos do barro, rompendo a tradição formal romântica do século XIX. Trazendo também diferentes áreas, movimentos, estilos e segmentos para compactuar de um mesmo rio onde Leminski desaguou algumas das referências que bebia junto com suas cervejas escorridas por seu longo begode².

Sendo iniciado a Poesia Concreta de Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos (que desenvolveram e publicaram o Manifesto Concretista para a poesia concreta), ele busca em seu texto, priorizar a importância da linguagem, realçando o valor da palavra na comunicação, de forma objetiva, sem relativizar ou tirar sua função. Esse experimentalismo contido no Concretismo, é resultado da ligação inicial direta com movimentos vanguardistas anteriores, como o Dadaísmo e Futurismo. Movimentos esses, que ajuda e influenciaram diretamente o surgimento de um movimento artístico posterior, que traria elementos dessas duas vertentes, transformando a arte em algo surreal. O Surrealismo.

O Movimento Surrealismo foi encabeçado por André Breton, que escreveu um manifesto em 1924, com intenção de criticar a burguesia, padrões estéticos e a arte como um todo (influência pesada do Dadaísmo), destacando o onírico, o irracional, o improvável, o inconsciente, o fantástico, o maravilhoso, o imaginário, a exploração dos impulsos da mente, “resolver a contradição até agora vigente entre sonho e realidade pela criação de uma realidade absoluta, uma suprarrealidade” (Breton, 1924). Na poesia de Leminski, é subvertido alguns conceitos poéticos, já no uso da colagem, imagens eram reunidas aleatoriamente e ao acaso, criando uma justaposição de objetos desconexos e associações que à primeira vista pareciam impossíveis, um conceito empregado ao Surrealismo. "Belo como o encontro casual entre uma máquina de costura e um guarda-chuva numa mesa de dissecção” (Lautréamont, 1997). Assumindo um caráter subversivo nas linhas que se seguem com seus sentidos diferentes juntos.

É possível também analisar o jogo que Leminski estabelece com o leitor, capacitando uma busca de referenciais, lhes dando a possibilidade de explorar um ente dentro de outros, o poema apresenta relações dialógicas no sentido em que as falas recortadas estabelecem significados em comum, “a todo instante se encontra nas conversas ‘uma citação’ ou ‘uma referência’ àquilo que disse uma determinada pessoa, ao que ‘se diz’ ou àquilo que ‘todos dizem’, às palavras de um interlocutor, às nossas próprias palavras anteriormente ditas, a um jornal, a um decreto, a um documento, a um livro...” (Bakhtin, 1988)

É considerável fatalizar que o poema pode ter levado um considerável tempo de leituras e pensamentos do autor para que pudesse ser construído com diversos referentes e ordem minimamente analisados em sua construção, ou partiu unicamente de pulsação momentânea, no sentido do uso aleatório de citações postas na obra, trazendo sentido relativo, tanto para o próprio Leminski, quanto para os leitores.



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1 Vistoso como um belo bigode.
2 Bigode.






Referências bibliográficas​:

AKHTIN, Mikhail. Teoria do romance I, : a estilística​. Bezerra, Paulo. Botcharov, Serguei; Kójinov, Vadim. São Paulo: Editora 34, 2015. 256pp.

CAMPOS, Augusto et alii. Teoria da poesia concreta​, São Paulo, Edições Invenção, 1965.

DOESBURG, V. T. Manifesto Concretista.Art Concr​et, Paris, n.1, 1930.

GESSNER, Ricardo. Ao sabor dos limites: uma interpretação de “Limites ao léu”​, de
Paulo Leminski. 2017. 18 f. Artigo (Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em
Literatura e Crítica Literária da PUC-SP)- PUC-SP, São Paulo, 2017.

PAZ, Octávio. Os filhos do barro: ​do Romantismo à Vanguarda. 1a ed. São Paulo: Cosac
Naify, 2013.

PINTO, Tales dos Santos. "Surrealismo​"; Brasil Escola. Disponível em
. Acesso em 16 de dezembro de
2017.


Análise do poema Limites ao Léu, originalmente feita como trabalho acadêmico por Magdiel Araujo e Samuel Ferreira. PDF disponível em: https://drive.google.com/file/d/1Gq7GsWY4H11LyY1SJmvBOHNiiKrZ2XmH/view?usp=sharing

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