ENTREVISTA COLETIVA | Escritores

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Olá! Estamos de volta com mais entrevistas, dessa vez a ultima do ano. Nesta quarta entrevista coletiva (houve três com blogs) conversaremos com três escritores sobre suas vivências, experiências e tudo mais que torna alguém um escritor.


  • Olá, tudo bem? Quem é você?

Meu nome é Irilene Stein Fraga, conhecida como Alquimica nas redes sociais. Tenho 21 anos e sou escritora.


Fábio Fernandes. Por ordem cronológica, tradutor, jornalista, escritor, professor universitário e pesquisador.


GeraldoDifícil de responder. Quem eu não sei, mas posso arriscar responder o que sou: um iludido inconformado com a realidade na qual eu vivo. Mas se te contentar, meu nome é , escritor.




Você escreve? Que legal! O que você escreve?


Irilene: Sobre o que vivo e histórias fictícias.

Fábio: Já escrevi de tudo um pouco. Comecei com poesia e peças de teatro (com direito a uma peça premiada aos 19 anos, tempos depois encenada profissionalmente). Depois parti para os contos e romances, que são basicamente ficção científica (com algumas incursões no horror e no policial).

GeraldoSim, escrevo para criar mundos. Ficcionista, mas arrisco a realidade fantástica. Gosto de romper com o cotidiano com algum tipo de evento inusitado.


O que te levou a querer escrever?

Irilene: As ideias em excesso que rondam minha cabeça. Desde criança tenho a imaginação fértil.

Fábio: Olha, faz tanto tempo que não lembro (sério). Mas lembro de ter tentado escrever um romance aos 9 anos de idade - isso em 1975, então você vai vendo a idade. Era uma história muito chinfrim sobre uma expedição interplanetária, onde os intrépidos astronautas americanos iam enfrentar o Rei de Marte. Sei que continuei escrevendo tentativas de histórias até o segundo grau, quando escrevi o primeiro romance pra valer, lá pelos 18 anos.E recebi uma carta de rejeição muito simpática do editor da Brasiliense da época, o falecido Caio Graco, que me incentivou a continuar tentando. E continuei.

GeraldoA necessidade de me terapeutizar. Vasculhar o que há dentro de mim e externar. Brincar de criador.


Como foi no começo?

Irilene: Muitas dúvidas quanto a escrita. Hoje estou mais tranquila.

Fábio: Comecei a publicar de verdade em 1987, quando me associei ao Clube de Leitores de Ficção Científica, fundado em 1985 em São Paulo. Eles publicavam (ainda publicam) um fanzine oficial da associação, o SOMNIUM, e foi ali que eu estreei, publicando contos mais ou menos até 2000 (quando publiquei minha primeira, e até agora, única coletânea de contos, Interface com o Vampiro).

GeraldoSempre senti o desejo de imaginar o mundo sob uma outra ótica. Mudar os ingredientes da vida para ver no que ia dar.


Já pensou em parar?

Irilene: Não! Amo escrever!

Fábio: Sim, várias vezes. Felizmente não me dei ouvidos.

GeraldoJamais. Sucumbiria em questão de dias.


Quais são as maiores dificuldades?

Irilene: Encontrar quem acredita no seu talento. É muito comum aparecerem pessoas que só querem te criticar de maneira destrutiva.

Fábio: Na minha opinião, basicamente duas. A interna, que é a insegurança, e a externa, que é a logística de publicação. A primeira pode ser devastadora, e me prejudicou muito. A segunda hoje em dia não é mais tão grande quanto na época em que comecei, mas ainda é um certo entrave, que pode desestimular os escritores iniciantes - se bem que, com recursos como o Wattpad, os autores pelo menos já têm um local onde podem colocar a produção e receber feedback.

GeraldoComo escritor... Escrever para um país que não lê. Para um país que não valoriza o material intelectual. Para um país que é hostil e ao mesmo tempo indiferente em relação a maioria das artes.


O que te motiva? E quais são suas inspirações?

Irilene: Os comentários positivos me motivam muito, além de saber que posso ajudar quem precisa fazendo o que gosto. Minhas inspirações são tudo o que vejo e ouço.

Fábio: Hoje o que me motiva é simplesmente gostar de escrever, sentir a necessidade de fazê-lo. Quero ser publicado, claro, mas nada se compara ao ato de escrever em si. Você se depara com a página em branco e de lá sai um mundo. Não consigo pensar em nada melhor.

GeraldoPrimeiramente, minha esposa e meus filhos são quem me incentivam todos os dias. Depois, os leitores que tenho. Estes são a motivação que preciso. Minha inspiração maior é a vida, mas sempre mudo aquilo que não gosto para dar um toque pessoal.


Qual a pior coisa de ser um escritor?

Irilene: Quando a inspiração vem em momentos inapropriados, por exemplo, no meio da noite.

Fábio: O escritor mente demais.

GeraldoA falta de recursos e de reconhecimento por parte da mídia. Como mencionei, há uma hostilidade inerente, uma vaidade corrosiva que também nos impede de prosseguir da maneira que deveríamos. Padecemos da maldição dos clássicos e dos estrangeiros. Os escritores brasileiros contemporâneos são simplesmente colocados debaixo do tapete até mesmo pelas grandes editoras que não investem no próprio produto que publicam. Deixam tudo a cargo do próprio escritor que precisa ser, além de escritor, articulador, gerenciador de estoque, marqueteiro, publicitário, vendedor e muitas vezes palhaço.


E qual a melhor coisa?

Irilene: Ver suas ideias tomando uma forma visível e palpável. Cada capítulo terminado é uma alegria.

Fábio: O escritor cria novas realidades. Para os outros e para si mesmo.

GeraldoDar vazão à criatividade e viajar nas letras. É muito bom. Sumir daqui por alguns instantes.


Como você atrai leitores? Como funciona a divulgação?

Irilene: Pelas redes sociais e, principalmente, divulgação boca a boca.

Fábio: Eu comecei a minha carreira num tempo pré-web, então não fazia divulgação, deixava para a editora. O problema é que a maioria dos meus trabalhos saiu por editoras pequenas, e acabei me dando conta de que, se não fizesse eu mesmo a divulgação, não conseguiria leitores. Quando as redes sociais começaram a surgir, eu comecei a ter uma presença bem ativa nelas - por tesão mesmo, sou apaixonado pela web, fiz disso meu objeto de pesquisa do mestrado até o pós-doc. Nunca tive página de escritor no Facebook - nada contra quem tem, mas não consigo ter, não consigo me vender dessa maneira. Mas hoje acho que tenho uma presença de web bem bacana, que tem me rendido boas amizades - o que ao fim e ao cabo é bem melhor que leitores (mas quero os leitores também, claro).

GeraldoTento atrair da maneira que dá. Redes sociais, palestras e eventuais entrevistas. Uma assessoria de imprensa seria ideal se houvesse alguma verdadeiramente especializada em escritores. No entanto, mesmo aquelas que se dizem voltadas às artes literárias, cobram muito caro de um indivíduo que muitas vezes não tem nem o que comer.


Como manter esses leitores? Como é a relação com o público?

Irilene: Sempre os atualizando sobre futuros projetos e estando disposto à ouvi-los.

Fábio: Pegando da resposta anterior: como eu falo demais nas redes (tem gente que já me deu o toque de que eu me exponho demais, e é verdade, mas esse sou eu), falo de literatura, sexualidade, política, o escambau, às vezes recebo críticas, mas tem muita gente que curte e dialoga. E são pessoas que acabam lendo o que publico. Tenho uma relação bem saudável com elas.

GeraldoÉ sempre bom mantê-los próximos. O leitor de hoje se interessa pelo autor, se interessa pelo seu processo criativo, quer se sentir participante da vida do escritor. Isso é gratificante para ambos os lados.


Que dica você daria para quem está começando?

Irilene: Não desistir. Pode ser difícil conseguir leitores no começo, mas a sua vez irá chegar.

Fábio: Primeiro, a dica que o Neil Gaiman dá a todos: sempre termine o que começou. E segundo, não desista com as rejeições ou críticas negativas. Continue escrevendo. E, acima de tudo, leia muito. Leia de tudo. Leia sempre.

GeraldoEscreva por amor à escrita sem esperar nada em troca. Jamais caia na ilusão de querer ser uma celebridade. Importe-se com os seus mundos. O resto virá como consequência, se vier.

Afinal, pra que escrever?

Irilene: Para desabafar, se expressar, se divertir... Os motivos são inumeráveis.

Fábio: Para espantar os demônios da nossa mente. Ou pelo menos tornar-se íntimo deles e saber conviver.

GeraldoPara expulsar os demônios da mente.


O que você já escreveu, e o que ainda deseja escrever?

Irilene: Eu tenho um livro lançado, Prosa do Sanatório - Pílulas Literárias de uma Mente Confusa, formado por pequenas crônicas que abordam a época em que eu estava com depressão. Agora pretendo ficar com os romances de ficção.

Fábio: Já publiquei: uma coletânea de contos (Interface com o Vampiro), um romance (Os Dias da Peste), uma série de contos soltos que ainda podem ser encontrados na web (este link contém o que saiu para Kindle: LINK). Além disso, tenho inéditos uma coletânea de contos (O Grande Concerto), um livro de microficções (O Pequeno Dicionário de Arquétipos de Massa) e um romance (Back in the USSR). Isso fora vários contos em antologias norte-americanas e britânicas, porque atualmente estou escrevendo quase que só em inglês. Ainda estou escrevendo uma série de contos em inglês e três romances em aberto, tudo para o mercado dos EUA. Até o fim do ano devo entregar o primeiro deles.

GeraldoEscrevi vários livros, alguns inéditos, na fila de espera para serem publicados. Também escrevo contos, sendo três deles premiados. Atualmente lancei o livro Geena:Eles voltaram. Trata-se de uma história bem interessante. O argumento é: O que aconteceria se a ressurreição fosse um fato? Que tipo de impacto social, político e psicológico este evento fenomênico provocaria? A partir daí, muita coisa acontece. O problema é que por detrás disto, há um personagem (protagonista), Rui Montenegro, um antropólogo, que passa a estudar o comportamento estranho dos ressuscitados. Para seu assombro, ele descobre que há um evento ainda maior que justifica a vinda destes revividos.


Se o mundo acabasse amanhã, qual seria sua ultima história?

Irilene: Ficariam várias histórias paradas pela metade.

Fábio: Um conto que estou escrevendo sobre resgate de viajantes do tempo. No espaço.

GeraldoSeria sobre um grande acontecimento no início do século 20 em Recife. O resto eu não posso falar. É segredo. Mas não vou esperar o mundo acabar para escrever a história.


Você tem outros projetos além da escrita, ou pretende ter?

Irilene: Sou uma pessoa que gosta de aprender coisas novas, experimentar coisas novas. Pretendo me aventurar no desenvolvimento de games e na produção cinematográfica.

Fábio: Tenho, mas não posso falar muito a respeito. Mas, acima de tudo, meu projeto principal é ter uma vida melhor e mais tranquila, justamente para que os escritos possam fluir em paz.

GeraldoNão. Só quero escrever. Já me arrisco nos roteiros de teatro e de curtas.


Quais outros escritores você indica?

Irilene: Não vou indicar alguém em especifico, mas pedir algo com muito carinho: dêem chances aos novos escritores da literatura brasileira. Não precisa abandonar suas leituras favoritas, apenas abrir um espacinho para quem está começando.

Fábio: No mercado de literatura fantástica lá fora: Nnedi Okorafor, Richard Kadrey, Kim Stanley Robinson, Nisi Shawl, Aliette de Bodard, Hannu Rajaniemi, Ann Leckie, Lavie Tidhar, Leena Krohn, Charlie Jane Anders, China Miéville, David Zindell, Anne Charnock, Tade Thompson, Cixin Liu, Ted Chiang, Ken Liu.
Aqui no Brasil, literatura fantástica ou não: Santiago Santos, Luiz Bras, Luis Biajoni, Micheliny Verunschk, Ronaldo Bressane, Ricardo Lísias, Márcia Denser. E os clássicos (mais antigos ou mais recentes), como Borges, Cortázar, Shakespeare, Bolaño, Piglia, Vila-Matas, Ishiguro, McEwan.

GeraldoRecomendo todos, especialmente os brasileiros contemporâneos que escrevem divinamente. Em particular Raimundo Carrero.


Por ultimo, Porque devemos ler você?

Irilene: Porque eu sou legal! Ok, piada ruim... Se você se interessa em uma leitura diferente, que faz você pensar e se identificar, dê um olá para mim.

Fábio: Já fui considerado um dos maiores escritores de ficção cientifica no Brasil, pelo menos na minha geração. Não concordo, mas sempre tentei estar à frente em termos de forma e conteúdo. Acho que vale a pena me ler, para saber se eu sou tão bom quanto já disseram.

GeraldoNão, ninguém deve me ler. Mas faço o convite ao leitor para ingressar no meu mundo. Se gostar, fique à vontade. Será uma tremenda aventura.


Muito obrigado. Até a próxima!

Irilene: Um grande abraço, pessoal!

Fábio: Eu é que agradeço.





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