CONTO | Ziggy Stardust

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Arte | Peter Ortiz


1
Oi. Meu nome é Ziggy. E eu sei ler. E escrever também. Estou tão emocionada. Nenhum outro zumbí sabe. Eles só ficam tipo “uaaaaaan uoooon” e revirando lixo por aí. Não sei pra quê fazem isso, já que eles nem comem. Eu também não como, estou morta. Nem sentir gostinho de nada eu consigo. Uma vez lambi todos os sabores de sorvete de uma sorveteria. Não senti nem frio. Acho que meu sistema nervoso… Ih! Eu sei o que é o sistema nervoso. Que demais! Eu não sou burra! Devo ser a única zumbí inteligente. Devo ser mais inteligente do que os humanos, que vivem nos atacando e dizendo que a gente come cérebro. A GENTE NEM TEM FOME! NOSSO ESTÔMAGO TÁ MORTO! Alguns zumbís nem têm dentes, e eu nunca vi nenhum cagando. Só ficam parasitando por aí, curtindo a existência deles. A pós-morte. É, acho que se pode dizer que é uma pós-morte. Vida é que não é. Nem tudo que existe tá vivo, certo? Cara! Eu tô muito impressionada, eu sei pensar! Pena que não lembro de nada da minha vida antes de ser zumbí. Quase nada. Eu me lembro do nome Ziggy Stardust. Acho que é o meu. É bonito e me vem muito à memória, então é como me chamavam. Aos poucos eu me vou lembrar de uma coisa ou outra. Sei pensar, sei o nome das coisas, sei o que é sistema nervoso, sei ler e escrever. E devo ter senso de me vestir. Acho que o nome é moda, mas lembro desse nome com desprezo, então significa que eu não tinha senso de me vestir? Quando minha consciência despertou e percebi que eu era uma zumbí, minhas roupas estavam rasgadas e sujas. Então eu fui a uma loja e me troquei. Nenhum outro zumbí fez isso. De vez em quando fico esperando algum despertar a consciência também, mas acho que não vai acontecer. Eles têm partes do corpo faltando, pele rasgada, coisas saindo pra fora. Eu tenho as duas orelhas, os dois braços, só meu nariz é partido. Minha pele só é rasgada no braço, mas eu ponho esparadrapo. A maior semelhança mesmo com meus amigos zumbís é a minha linda pele cinzenta. Eu achava que quando a pessoa morria ficava pálida, ou azul, sei lá. Mas eu gosto. Só sinto falta de alguém pra conversar. Nenhum zumbí fala. E quando aparece humano, é idiota, metendo bala nos zumbís. Os coitados não fazem mal a ninguém e só apanham. Às vezes me dá vontade de quebrar a cabeça desses humanos com um porrete. Já até arrumei um porrete, mas nunca me arrisquei. Tomara que eles peguem sorvete da sorveteria que eu lambi. Eu devia ter cuspido em cima, mas eu não tenho glândulas saliveiras. É saliveira que se fala ou saliveira é uma planta? De qualquer forma, é tão legal lembrar uma palavra que você nem sabia que conhecia. É legal falar glândula. Glândula glândula glândula. Vou escrever glândula bem grande com spray numa parede, espera só.
Escrevi.
Não gosto de humanos, prefiro ser zumbí. Zumbí tem acento? Vou escrever com acento. Ah, me esqueci de dizer que hoje achei um spray, além desse caderno (ele é vermelho). Escrevi meu nome na parede pra ver se pegava e pintei um zumbí inteiro de vermelho. Ficou até bonito, ele achou legal. Ao menos eu acho. Também acho que esse spray é infinito. E também escrevi bem grande numa parede para os humanos lerem “RESPEITE OS ZUMBÍS”. Não sei se vão respeitar, são muito idiotas. Uma vez eu até disse “ei! Nós não vamos atacar”, mas o humano jogou uma tora com fogo em mim. Queimou metade do meu cabelo e nunca mais nasceu. Ficou meio feio, mas eu arrumei com uma máquina e aí ficou legal. Tem um salão de beleza nessa parte aqui. Os humanos levaram tudo o que tinha lá, assim como em outras lojas, mas eu ainda acho algumas coisas por aí. É raro achar uma loja que não tenham saqueado. O bom é que eles nunca olham os lixos, e às vezes deixam passar os depósitos das lojas. Daí fica pra mim.
Eu não durmo, então tenho que arranjar algo pra fazer. Pintar paredes, pintar zumbís, escrever um diário. Não vejo motivo para eles levarem as tintas e as canetas, mas eles roubam qualquer coisa. Eu escondo meu caderno (esse diário aqui), embaixo de uma lata de lixo. Vou procurar mais sprays, tintas, pincéis, algo legal pra fazer. Eu queria fazer uma tatuagem, mas nunca achei um local com materiais, nem saberia o que tatuar e tenho medo de rasgar minha pele. E ela é tão bonita cinza que eu já estou desistindo da ideia. Só pus mesmo um brinco na parte superior da orelha (falar “parte superior” é legal). Bem, agora vou mesmo. Me fez bem escrever aqui, já que não tenho ninguém pra conversar. Pelo menos não que me responda alguma coisa além de “uaaaan uooon”. Eu sei que é besta escrever em um caderno como se estivesse falando com uma pessoa, mas é o que eu tenho. Embora tente não fazer com que isso aqui pareça um diário. Por esta razão, não me despedirei.
Até mais!
Ps.: Foi mais forte que eu.

2
Olá! Juro que tentei não cumprimentar o caderno.
Hoje foi tenso, corri de uma horda de humanos. Me senti orgulhosa ao ouvir um deles dizer “essa peste corre mais do que eu”, achei bem-feito pra ele.
Nunca me pegarão viva!
E espero que nunca peguem depois de morta. Os ataques têm se tornado cada vez mais constantes. Às vezes aparecem do nada atirando, às vezes eu os avisto antes de chegarem e consigo trancar alguns zumbís em depósitos. Eu faço gestos pra eles, insinuando armas, e eles entendem que falo sobre humanos. Faço gestos para eles me seguirem e eles me seguem. Confiam em mim, isso é bom. Morrem de medo dos humanos (eu também), nunca vi um zumbí atacar ninguém. Só chegar perto.

O problema é que os zumbís são muitos. Não dá pra esconder todos e nem mandar correrem. Alguns nem andam. Havia um zumbí que tinha uma perna só, eu o chamava de Pilinho, ele vivia se arrastando usando os braços desgastados para aguentar o peso do próprio corpo (que nem era tanto). Certa vez achei um carrinho de madeira, era uma tábua grande com rodas, coloquei Pilinho em cima e o empurrei rua abaixo. Ele fez “uooooooo” de tão feliz. Sim, eu dou nome a alguns zumbís que vejo com mais frequência. Tem o Jaiminho, que usa roupa de carteiro. Sempre pergunto se tem carta pra mim e ele balança a cabeça dizendo que não. Tem a Dona Gertrudes, que é uma senhora bem simpática deficiente de um braço; o Ignóbio, que vive se esfregando em paredes; e a Jiliminha, que vive pondo lixo na boca e vomitando por aí. Ah, tem também o Zumbí do Não. Ele anda sempre balançando a cabeça pra esquerda e pra direita, sem parar. Não sei como ele consegue.
Eu havia dado nomes a mais alguns, porém eles sumiram e outros morreram. Saudades do Seu Girimba, que parecia um bêbado.
Às vezes eu fico me perguntando o que mantém os zumbís vivos. Se eu não como, como consigo ficar em pé? Como um zumbí consegue respirar sem pulmão? Se for uma bactéria deve ser muito poderosa. Deve ser por medo de não se contaminar que os humanos têm aversão aos zumbís. O QUE NÃO É MOTIVO PRA SAIR ATIRANDO EM QUALQUER UM QUE VÊ PELA FRENTE! É só não chegar perto, ora!
O ataque de hoje ocorreu quando eu estava realizando um lindo trabalho de pintura corporal num amiguinho que chamei de Tum. Enchi Tum de flores, faltavam só algumas para acabar quando ouvi os tiros. Corri para tentar salvar alguns zumbís, mas já estava cheio de humanos na rua. Tum conseguia até correr, mas correu pro lado contrário e morreu. Um cara falou “quem é que pinta esses zumbís”?
Respondi que fui eu, mas ele mirou a arma. Foi daí que eu corri mais do que ele.
Houve outro ataque agora há pouco. Corri e vim para outra parte da cidade. Aqui só tem casas. Ainda estou procurando onde tem tintas ou sprays. Não vi nenhum humano  nessa área por enquanto. Não sei de onde eles vêm, nem onde se alojam. Já pensei em descobrir, mas seria arriscado segui-los ou chegar perto do lugar. Pensei também em evitar ficar na rua, mas não posso abandonar meus irmãos zumbís. Eles podem não entender o que eu faço por eles, mas eu entendo, e é por isso que eu ajudo.


Passei o resto do dia explorando umas casas. Queria achar algo pra ler, mas, pelo visto, quem morava nesse bairro só lia propagandas. A não ser que os humanos também tenham levado. Mas duvido muito. Se gostassem de ler não teriam tempo pra matar. Tenho tanta raiva. Mas voltemos às casas.
Eu não achei nenhuma tinta, mas tinha várias pequenas estátuas em uma das casas. Só tinha sobrado isso, a casa estava totalmente saqueada. Algumas estátuas tinham chifres, outras eram vermelhas, haviam mulheres seminuas e com vestidos longos. Também tinha estátuas de senhores usando terno e chapéu. E já ia me esquecendo dos pratos. Grandes pratos de barro com tridentes de metal dentro. Alguns tinham um pó amarelo que não sei o nome. E também cera derretida, disso eu lembro o nome.
Agora tá muito escuro lá fora, preciso monitorar a rua com meu porrete de madeira nunca usado em alguém. Um dia bato em algum humano. Alguns saem à noite pra caçar zumbís. E SÓ POR DIVERSÃO. Eu fico indignada!
Bem, o dever me chama.
Afinal, pra ajudar alguém nem precisa ser chamado. Basta se pôr no lugar de quem precisa.
Ps.: Ah! Não me despedi dessa vez!

3
VOCÊ NÃO VAI ACREDITAR NO QUE EU ENCONTREI! Eu estava explorando as casas de uma rua, todas quase vazias por conta de saques humanos, e em uma delas tinha algo que eles deixaram passar. A casa não é lá bonita, aliás; todas as casas dessas ruas são mais ou menos parecidas, mas essa era até arrumadinha em comparação às outras, com seus móveis vazios e quebrados. Na sala havia uma estante grande que tinha duas portinhas na parte inferior. Uma delas estava vazia, mas na outra encontrei vários discos. Que bom que os humanos não levaram. Eu não me lembro de nenhuma música que ouvi enquanto viva, por incrível que pareça, e também não reconheci nenhum daqueles discos, mas me encantei bastante. Havia até uma banda chamada Almôndegas, e outra chamada Secos e Molhados. Se alguém está seco, como pode estar molhado? Achei genial. Haviam cantores chamados Tim Buckley (bom nome para um zumbí), Joan Baez (esse vai para alguma mascote, se encontrar uma um dia), Patti Smith, Rita Lee, uma banda chamada Joy Division, e outra chamada Renaissance (será que eles “renaisseram”, como zumbís?). Mas agora é que vem a surpresa. Me deparo com um disco escrito Ziggy Stardust. Meu coração pararia se estivesse pulsando! Pensei “ai minha existência! Eu era cantora?” Mas então prestei atenção na figura da capa. Era um homem em pé. Vi então o nome David Bowie e pensei “então quer dizer que… esse cara fez um álbum pra mim! Será que era meu pai? Ou meu irmão? Será que eu morava aqui?” Olhei em volta e pensei até em me alojar na casa. Os humanos pelo visto já haviam passado por ali, talvez não houvesse motivo para eles voltarem. De qualquer forma, resolvi ao menos escolher essa casa para guardar o caderno, o porrete, as tintas, e o que mais eu recuperar. Então, tecnicamente, agora eu moro aqui, onde talvez já tenha morado. Irei voltar à cidade para procurar uma vitrola onde eu possa ouvir esses discos. Se o álbum com meu nome falar sobre a minha vida, ou de como eu era, já me ajuda muito. Ah, e também tenho que arranjar tintas e sprays.
Não consegui. Tinha muito humano por lá. Foi tão triste de ver vários irmãos destruídos pelas ruas. Não voltarei mais àquela parte. Estou com muito med

4
Bem, caderno. Foram muito poucas as vezes em que escrevi aqui, e talvez seja a última. Dois humanos invadiram minha casa. Eu estava escrevendo quando ouvi uma voz do lado de fora dizendo “aquela zumbí que fala, eu vi ela entrando aqui” (“vi ela” é uma frase horrível de se dizer). Mal tive tempo de esconder o caderno em algum lugar e já invadiram. Corri para a cozinha e olhei em volta, mas não tinha nenhum lugar onde eu poderia me esconder. Eles entraram e atiraram em mim, mas só arrancaram minha orelha esquerda. Não senti dor. Gritei “espera! O que eu fiz de mal a vocês?” Eles me xingaram, me chamaram de monstro e disseram que eu era a líder dos zumbís, que iriam me matar antes que surgissem outros iguais a mim, e simplesmente atiraram mais. Eu me abaixei. Havia uma mesa no centro da cozinha entre nós. Ao me abaixar, fui para debaixo da mesa e me levantei jogando-a em cima deles. Corri para fora. Lá tinha mais humanos. Atiraram na minha perna e nas minhas costas. Não sinto dor, então continuei correndo, subi em um pequeno muro, pulei em um telhado e corri mais. Consegui me apartar para longe. Também não poderia morar lá. Não poderia morar em lugar nenhum. Enquanto existirem humanos, o mundo não vai ser um lugar seguro.
Decidi que, daí em diante, iria prosseguir sem me alojar em lugar nenhum. Procurando onde talvez eu possa ajudar meus irmãos de uma forma melhor. Como? Eu não sei, mas pretendo descobrir quando chegar a hora.
O problema é que meus discos e meu caderno ainda estavam na casa. Eu precisava voltar para recuperá-los. Eram meus. E o disco que meu pai fez pra mim talvez me ajudasse a lembrar de quem eu era.
Fiquei em cima de telhados e esperei amanhecer. Voltei até lá; felizmente não havia nenhum humano nas proximidades. Eu não lembrava onde havia escondido o caderno. Me desesperei, mas, para o meu alívio, eu o encontrei jogado atrás da estante. Essa caneta, inclusive, quebrou. Tá borrando tinta na minha mão agora. Após alguns momentos respirando lembrei dos discos. Não estavam mais no mesmo lugar. Procurei mas não estavam mais em lugar nenhum. Um imenso ódio tomou conta de mim e ainda está aqui dentro.
Decidi ir atrás do que é meu! É a única maneira de descobrir quem fui, mesmo eu me aceitando da forma como sou agora. Aquilo é meu! Foi feito pra mim! Então, se eu não voltar a escrever, provavelmente foi por ter sido explodida ou ter levado uma bala na cabeça.
E se algum humano encontrar esse caderno junto com meus pedaços, saibam que não os queremos mal. Só queremos viver em paz. Só isso.

Obrigada pela atenção.

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